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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Nascido cinco vezes

 Minha mãe me deu a luz cinco vezes.
 A primeira foi num dia pálido e setembro, la pelas oito horas da manhã, quando as  nuvens ainda estavam no ninho e o cheiro de pão fresco não tinha pulado a cerca da vizinha. Nada parecia perturbar o ambiente da casa. A descarga funcionava normalmente, o sabonete soltava bolhas no ar e os cachorros batiam o rabo na madeira do chão da cozinha.
  O primeiro berro, de minha parte, saiu sem nenhum esforço. Foi pura necessidade de aspirar o ar, depois de passar nove meses dentro da placenta cheia de liquido amniótico Minha mãe estava esperando o pai, que havia ido comprar o jornal do dia. Claro que ele já trazia a noticia da minha chegada. Os jornais da época eram muito ágeis.
 Tão logo cheguei, uma tia entrou no quarto e disse pra minha mãe que eu teria um brilhante futuro porque havia nascido em casa e com máscara de palhaço. Rindo á toa.
 A chuva lavou a manhã, o sol secou tudo e os bondes passaram. A roupa de cama do futuro estava pronta para me trazer a fama.
 Seis meses depois, o futuro entrou em convulsão. E eu sai de cena.
 A segunda vez que vim é luz era noite. A lua havia ido visitar um parente distante e deixou tudo ás escuras. Minha mãe achou que era apenas uma cólica e nem ligou. Tive que fazer esforço para aparecer em público. A tia pegou uma vassoura e tentou me varrer para fora de casa. Assombração, ela gritava. Não sei se era pela feiura ou porque crianças já nasciam apanhando.
 Ela não previu nada dessa vez. Eu apenas cresci e me tornei mecânico de automóveis.
 Da terceira vez tenho poucas lembranças. Tudo foi preparado com antecedencia, já havia exame pré- natal, ultrassonografia e teste do pezinho. Viram meu sexo e toda constituição física. Pensaram que eu tinha oito braços e três pernas. Era apenas minha inpaciencia á mostra. Ate a hora do parto foi marcada. Mesmo assim, me antecipei. Queria ir ao jogo de futebol do meu time e pedi para sair antes. Meu time perdeu. A tia, já mais velha, teve alguns pressentimentos e mandou que me benzessem, batizassem e crismassem. Depois disso, nunca fui o mesmo. Queria comer hóstia e tomar vinho todos os dias.
 Na quarta vez, a coisa foi mais tranquila ainda. O dia amanheceu todo pintado de manchas pretas e brancas. Chovia só nos cantos dos muros. A tia cochilava no sofá enquanto a novela ia em frente. A mãe preparava o jantar e no ar tinha cheiro de cebola frita com bife de figado. O pai lia o jornal do dia posterior um taxi parou lá na frente de casa, buzinou e lá fomos nós. O obstetra sorria muito. Quando sai, tinha restos de cebola na boca e bafo de bife de figado. A tia viu nisso um presságio: eu seria um ótimo gourmet e talvez até chefe de cozinha. Deu azar virei presidiário. Por conta de alguns golpes contra o erário público.
 Na quinta e última vez, com sete meses de ante cedência minha mãe já sabia a cor dos meus olhos, meu código genético inteiro, meu futuro gosto por blues e ate o nome da mulher com quem eu me casaria e teria filhos um menino loiro e uma menina de olhos verdes previamente escolhidos. A tia estava bem velhinha e só dava risada de tudo. Ela dizia que tempos malucos! Não se pode nem nascer em paz.
 Mal sabia se ela que nem se pode morrer em paz. Hoje tenho cinco próteses de ossos diversos, três pontes de safena, um implante de rim, doze implantes dentários e uma dívida de cem mil reais no banco. Tomo seis remédios de uso continuo. Fiz cirurgia bariátrica, implante de cabelos, e meu carro está com cento e doze mil quilômetros rodados sem chances de ser trocado.


Conto de Rui Werneck de Capistrano, um dos seis contos selecionados no terceiro Cncurso de Contos da ler&Cia

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